sexta-feira, 30 de junho de 2017

A PITONISA DE EN-DOR

por Jetúlio Luz

Um dos textos mais debatidos nas Escrituras, sem dúvida, é 1 Samuel 28.3-25. Os espíritas utilizam esse texto para tentar corroborar suas práticas, e como também, há divergências de interpretações até entre os verdadeiros servos de Deus. 

O povo de Israel estava sob o vulcão dos filisteus. Samuel, o profeta de Israel, já havia morrido. Deus não falara com Saul por nenhum dos meios, quer por sonhos, Urim ou profetas. No desespero, ele procurou uma feiticeira para obter resposta de Deus, já que o Senhor não falara com ele, pois já havia reprovado e passado o seu reinado a Saul. E aqui, ele torna-se presa fácil para os demônios enganá-lo, se aproveitando de seu desespero.

I. A grande questão: Foi Samuel que apareceu ou não?

Esse questionamento vem se arrastando pelos séculos, e com duas interpretações diferentes. Uns, alegam que, de fato, foi Samuel e outros, que foi um espírito demoníaco na aparência de Samuel. Eu, particularmente, não acredito que tenha sido o profeta Samuel. O versículo 3 diz "E Samuel já estava morto...". Ora, o AT condena a consulta aos mortos com grande severidade, como Deus então, permitiria que o seu santo profeta seria canal de engano? É contraditório com o contexto geral das Escrituras.

Tudo bem que a narrativa do texto dá a entender que fosse Samuel ("Samuel disse a Saul", vrs. 15,16), mas é bom lembrar que isso só ocorre depois da pretensa aparição de Samuel a feiticeira, o que mostra, claramente, que a narrativa passa a ser sob a perspectiva de Saul e a feiticeira.

Quando Saul, pede para subir a Samuel, há uma contradição. No versículo 12, ela disse que ver Samuel, mas no versículo 13, quando Saul pergunta o que ela ver, ela diz: "Vejo deuses que sobem da terra". Saul, ainda mais perdido pergunta: "Como é a sua figura?", Ela responde: "Vem subindo um homem ancião, e está envolto numa capa" (v.14). Ora, a principio, ela disse que ver Samuel, mas no desenvolver do diálogo, ela mostra-se ambígua, pois não fala com tanta certeza e deixa em aberto: vejo deuses e um homem ancião! O relato da feiticeira, por si só, já é confuso.

A partir da ambiguidade da feiticeira, o texto diz: "Entendendo Saul que era Samuel, inclinou-se com o rosto em terra, e se prostrou" (v.14b). A narrativa vai partir dessa perspectiva: Saul, pensa que é Samuel, logo, o texto será sob esse enredo. Além de Saul está desviado do Senhor e reprovado por ele, logo não teria condições espirituais para tal discernimento, sendo presa fácil para os espíritos imundos enganá-lo, estava na dependência dos relatos de uma feiticeira que ele mesmo desterrou (v.3, 9) e que o espírito do engano prevalecia para se manter viva. O ambiente era propício para os demônios se transfigurarem, como disse Paulo, "em anjo de luz" (2 Co 11.14). Assim, entendo como outros que ali era um espírito imundo que se transfigurou na aparência de Samuel para enganar a ambos. Como diz O Novo Comentário da Bíblia, fico com Tertuliano, Jerônimo, Lutero e Calvino: "A assembleia judaica sempre acreditou que Samuel realmente apareceu naquela ocasião, como também era essa a opinião dos primitivos cristãos, como Justino Mártir, Orígenes e Agostinho. Mas, por outro lado, Tertuliano, Jerônimo, Lutero e Calvino acreditavam que um demônio houvesse aparecido em forma de pessoa, fingindo-se de Samuel" (página 321).

A Bíblia Apologética de Estudo (ICP-Instituto Cristão de Pesquisas), sobre esse texto, diz: "Não se pode entender que Samuel, um homem santo durante toda a vida, pudesse, depois de morto, prestar-se a obedecer a pitonisa - mulher abominável-, cometendo um pecado tão claramente proibido por Deus (Ex 22.18; Lv 20.27; Dt 18.19-22; Is 47.13). Não se pode conceber  que Deus tenha proibido a feitiçaria e a consulta aos mortos e, depois, permitir que a feitiçaria trouxesse o espírito de Samuel (Tg 1.17). 

II. A Profecia.

A profecia do falso Samuel, que era demônio na aparência de Samuel, não se cumpriu na sua totalidade, o que contraria a vida do verdadeiro Samuel, o qual a Bíblia diz: "E crescia Samuel, e o Senhor era com ele, e nenhuma de  de todas as suas palavras deixou cair em terra" (3.19, grifo meu). O CACP (Centro Apologético Cristão de Pesquisas), analisando essa falsa profecia, diz: A profecia do falso Samuel, isto é, o que iria acontecer na vida de Saul foi clara, como se vê no versículo 19: “O SENHOR entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus, e amanhã tu e teus filhos estareis comigo; e o acampamento de Israel o Senhor entregará na mão dos filisteus” Essa profecia não se cumpriu na íntegra, conforme passaremos a observar: Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus; ele se suicidou (1 Samuel 31:4) e seu corpo foi recolhido do campo de batalha pelos moradores de Jabes-Gileade (1 Samuel 31:11-13).

Também não morreram todos os filhos de Saul – este tinha seis filhos e três deles sobreviveram. Morreram na batalha Jônatas, Abinadabe e Malquisua (2 Samuel 31:8-10; 21:8). Esses fatos tornam essa profecia uma flagrante contradição com o testemunho divino a respeito de Samuel, pois está escrito que “o Senhor era com ele, e nenhuma das sua palavras deixou cair em terra” (1 Samuel 3:19)."

Concluindo, acredito que antes de determinar as conclusões, devemos analisar o conjunto da obra, ou seja, o que a Bíblia diz em todo seu contexto. Pois seria um equívoco Deus condenar a necromancia, feitiçaria, e ao mesmo tempo permitir a consulta para sentenciar Saul, que já havia sido reprovado. 

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Bibliografia

O Novo comentário da Bíblia. Edições Vida Nova. 3 Edição. São Paulo, 1997.

Bíblia Apologética de Estudo. 1 Edição. ICP-Instituto Cristão de Pesquisas.

Artigo do CACP-Centro Apologético Cristão de Pesquisas, sobre "A feiticeira de En-Dor", acessado em 30/062017, às 16h.

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