quinta-feira, 13 de julho de 2017

IMPLICAÇÕES PRÁTICAS DO CALVINISMO AO PENTECOSTALISMO

por Jetúlio Luz

Há um debate efervescente sobre a soteriologia entre as principais vertentes teológicas, a saber, Arminianismo e Calvinismo. Com suas premissas bem elaboradas cada um julga sob suas lentes teológicas qual a melhor desenvoltura quanto seu alvo soteriológico. Entretanto, penso que calvinismo não é só uma questão soteriológica, um pouco mais. O calvinismo é muito mais que um sistema soteriológico, é um modus vivend que não é compatível com o pentecostalismo não só pelo viés teológico, mas com suas implicações práticas. Esquecendo o debate interminável e, ás vezes, infrutífero, me a tenho as implicações práticas do calvinismo sobre alguém que confessa o pentecostalismo.

1. A soberba intelectual.

Conversando uma vez com um calvinista, ele deixou bem claro que nós pentecostais não estudamos o suficiente e por isso eles tem uma preparo maior. Isso diz muito por não ser uma fala isolada, mas que, sem dúvida, representa quase a sua totalidade. Sergio Lima, pastor presbiteriano, em um vídeo intitulado "3 Heresias de Origem Pentecostal" , na altura dos 3 min e 47 segundos, diz: "São pobres pregadores, destituídos do minimo do que é a palavra do Senhor, destituído do mínimo de condições exegética para ler um texto numa língua original, destituído de um minimo de conhecer uma hermenêutica de um texto, destituído da condição de estudar dois, três, quarto ou cinco anos, ou no caso dos presbiterianos que beiram sete anos estudando teologia para ser ordenado, destituído de todas essas coisas, eu só tenho dó" . Esse tipo de fala mostra a dimensão da soberba intelectual fazendo da academia um deus. Isso não é a questão de anti-intelectualismo que tanto debato ((Escrevi sobre isso, click aqui), mas uma leiutura do espírito soberbo e a forma como encaram o conhecimento tornando-o um verdadeiro "bezerro de ouro". Um outro disse que o "maiores pregadores e teólogos são calvinistas", um total desconhecimento do outro lado da cerca. A questão não é a intelectualidade, mas a postura diante dela. Nós pentecostais estamos à caminho da maturidade intelectual, graças a Deus há uma maior compreensão hoje da importância do preparo intelectual, mas em nenhum momento podemos erigir um altar a idolatria do saber. Devemos crescer no conhecimento e não idolatra-lo!

2. Flertar com o racionalismo.

Não me refiro ao racionalismo com sistema filosófico de Descarte, Spinoza, Leibniz, mas o uso da razão em detrimento da espiritualidade. O calvinismo na prática enxerga o "dois mais dois são quatro" para resolver questões espirituais que fogem de seu entendimento teológico. A experiência não tem nenhuma importância, pois tudo tem que passar pelo uso da razão teológica. Não é a toa que vemos calvinistas zombando de experiências espirituais, manifestações pentecostais, etc. Isso vai contra o pentecostalismo, pois apesar de usar as Escrituras como régua hermenêutica e que ela tudo julga e não é julgada por ninguém, acreditamos que Deus fala com o homem de várias maneiras como através de sonhos, revelações, etc. O racionalismo como sistema filosófico endeusa a razão, e dentro do calvinismo isso reflete quando engessa a espiritualidade numa gaiola teológica resumindo a soberania de Deus a compêndios frios e engessados de teologia. As experiências não substituem os ensinos da Bíblia, mas a Palavra de Deus avalia as nossas experiências para não recorrermos em algum erro, sem contudo nega-las.

3. A exígua ênfase ao Espírito Santo.

Acho que um dos grandes "pecados" históricos na teologia calvinista é a pouca ênfase na operação do Espirito Santo como temática separada (Veja por exemplo a Teologia Sistemática de Louis Berkhof que não trata da Pneumatologia, e essa TS é uma das mais clássicas). Enfatizam tanto o "Sola Chritus" que fazem do Espírito Santo um coadjuvante na obra da expiação. Quando se fala do Espírito Santo sempre Ele como "auxiliar" de Cristo em sua obra. Claro que há exceções, mas na sua membresia essa é a impressão que impera e um crente observador logo perceberá. Há uma escassez de sermões sobre a obra e Pessoa do Espírito Santo. Percebo que quando se fala do Espirito Santo sempre está aliado a Cristologia como se o Espírito Santo fosse uma pessoa secundária na trindade divina. Isso não se alinha ao pentecostalismo, pois o movimento pentecostal é o movimento do Espirito. Glorificamos a Cristo pelo Espírito. Adoramos a Deus pelo Espirito e em Espirito oramos a Deus. Que nós pentecostais continuemos elaborando estudos e sermões sobre a terceira Pessoa da Trindade não ignorando seus efeitos ontem e hoje, até o arrebatamento da igreja e não tratando como secundário.

4. A descaraterização da liturgia pentecostal.

A maioria das igrejas calvinistas seguem sua liturgia dentro de um scripit que quase nunca se modificam. A organização racional é seguida a risca. Apesar da igreja pentecostal clássica ter uma liturgia, veja o caso das Assembleias de Deus, um dos diferenciais é a espontaneidade, o que diferencia e muito das demais. É fácil detectar uma igreja que se diz pentecostal com teologia calvinista, a sua liturgia é engessada, nada foge do papel. Não acredito que isso seja salutar para o pentecostalismo. Bom salientar que não estou aprovando esquisitices no culto, mas que por medo dessas coisas estranhas, não podemos achar que a solução é estarmos sob o silêncio sepulcral! 

Tem igrejas pentecostais que já adota o tal de "Principio Regulador do Culto" em seus encontros. Ora, isso é uma invencionice sem tamanho, pois cada denominação cultua sob suas lentes e por mais bíblica que ela seja, sempre tem os gostos pessoais que, infelizmente, são incorporados com cara de piedade. Sabemos sim que cultos tem elementos essenciais, como louvor, pregação, Ceia do Senhor, ofertório, etc, entretanto, isso é um gesso ordinário que não pode ser impedimento para a adoração que Jesus disse "em espirito e em verdade" (João 4.24) e que Paulo disse a igreja de Coríntios: "Quando vos ajuntais, cada um de vós  tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para a edificação" (14.26), e ainda a igreja de Éfeso disse: "falando entre vós com salmo, e hinos, e cânticos espirituais, cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração" (5.19). Já em muitos púlpitos pentecostais a tentativa de impedir o falar em línguas, profetizar sob a alegação hermenêutica mais superficial possível.

5. O engessamento evangelístico/missionário.

A questão da evangelização no ciclo calvinista é consequência da sua teologia soteriológica. Pois imaginam que para quê evangelizar se tudo estar decretado, pessoas predestinada e eleitas ou não por Deus. Claro que tem uma minoria de igreja calvinista que evangelizam e investe em missões, mas essa não é a realidade da teologia calvinista, isso é exceção. Essa teologia enfraquece o fervor missionário! Uma das características do pentecostalismo é a evangelização e missões. Nascemos como fruto de missões. O pentecostalismo no Brasil é fruto de obra missionária e esse DNA não pode ser ignorado. Somos um movimento das grandes Cruzadas de Reinhard Bonnke, Bernard Johnson, mas também somos a igreja do Ar livre, das Rodoviárias, das passeatas evangelísticas. Somos a igreja da metrópoles mas também do sertão. Isso é DNA. Que Deus nos ajude a não perdemos o fervor missionário.

6. Evangelho elitizado.

Não podemos ignorar que a maioria das igrejas calvinistas tem um alto poder aquisitivo o que naturalmente atrai pessoas mais abastadas. Isso é fato. O grande problema é quando a visão missionaria fica só no mármore e esquece do chão de terra. Converse com um pastor calvinista e percebará nas entrelinhas a tentativa dele conseguir membros abastados para sua igreja! Não podemos esquecer que o pentecostalismo nasceu entre pessoas simples e que, historicamente desenvolveu na "periferia", o seu crescimento se deu entre pessoas simples. Nunca houve essa aceoção entre o doutor e o analfabeto, juntos eles adoram ao mesmo Deus sob o mesmo teto. Sim, acepção de pessoas sempre existiu, nunca houve sistema perfeito, mas dentro do pentecostalismo é normal a mistura de gente sem a preocupação do ter. Claro que nos dias de hoje com a força do capitalismo as cores mudaram consideravelmente, mas a história não é essa. Um pastor não pode ter foco em nível social, mas na condição das almas. Meu clamor é que não venhamos eletizar o evangelho, mas que tenhamos o foco de almas que precisam de Jesus aonde estiver uma alma carente de salvação.

Particularmente acredito que alguém que abraça o calvinismo pode ser tudo, continuísta, carismático, etc, menos pentecostal. Isso por que o escopo teológico do pentecostalismo difere consideravelmente da teologia calvinista. Há uma discrepância teológica irreconciliável. A questão do calvinismo não é só soteriologia, é muito mais, e isso não se deve ignorar. Claro que as considerações que levantei aqui são práticas que vemos no dia-a-dia que tem como pano de fundo a teologia, o que reforça o que acredito e tenho dito: É impossível ser pentecostal e calvinistas ao mesmo tempo, as disparidades teológicas e suas implicações não podem ser ignoradas tornando-se impossível de harmonizar.

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